NARRATIVAS DIGITAIS E UMA ARQUEOLOGIA PARA O FUTURO

Nesta série de entrevistas, integrantes e colaboradores do Amazônia Revelada compartilham experiências e refletem sobre o papel do patrimônio arqueológico na Amazônia, em uma rede construída por ciência, comunidades e territórios.

Q & A

"Juntos, estamos mostrando que a Amazônia não é só biodiversidade. é também memória, história e identidade."

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O historiador, escritor e membro fundador da Academia Marajoara de Letras, professor Rossimar da Nóbrega, nos ensina como a articulação conjunta entre cientistas e comunidades pode fortalecer a valorização das identidades e histórias locais, além de contribuir para a proteção do patrimônio biocultural.

No centro, Professor Rossimar com artesãos, agricultores, moradores e arqueólogas do projeto que atuam diretamente no Marajó.

No município de Anajás, no arquipélago do Marajó, o professor Rossimar da Nóbrega é educador da rede pública e pesquisador autodidata, atuando na conscientização sobre o patrimônio biocultural da região.

Em 2023, quando a seca dos rios revelou urnas funerárias nas margens de Anajás, Rossimar passou a colaborar – junto com outros moradores e em parceria com arqueólogas – na mediação entre ciência, poder público e comunidade, o que resultou no resgate oficial dos materiais.

Hoje, além de acompanhar algumas ações do Amazônia Revelada – inclusive em áreas indicadas por ele como de alto potencial arqueológico -, Rossimar mantém uma presença ativa nas redes sociais, onde compartilha reflexões e histórias sobre o passado e presente marajoara. Em um de seus projetos online, o Expedição das Águas, criado em 2021, ele apresenta os arredores de Anajás a partir dos rios, contribuindo para a difusão da história regional e fortalecendo o sentimento de pertencimento nas comunidades.

A ciência precisa dialogar com a cultura local. Só assim a troca de conhecimento será verdadeira, viva e transformadora.​

Professor, quando e como começou o seu interesse pela arqueologia?

O meu interesse surgiu ainda da juventude, no meu município de Anajás (PA). Desde cedo, fui marcado pelas narrativas orais dos mais velhos, como o Seu Alfredo, uma verdadeira lenda, que Deus o tenha no céu, e o meu próprio pai, um grande influenciador. Ele contava histórias sobre objetos antigos encontrados nas margens dos rios, sobre urnas cerâmicas que emergiam com o tempo e sobre vestígios misteriosos espalhados pela floresta. Esses relatos despertaram em mim uma curiosidade natural sobre o passado e dos povos que viveram por aqui.

Em 2021, você organizou o livro “Anajás, um povo, uma história”, que conta a história do povo anajaense desde a chegada dos jesuítas e seu encontro com os índios Anajás, passando por diferentes ciclos econômicos (borracha, palmito, madeira, dentre outros). O que o motivou a documentar essa história e como foi esse processo?

O que me motivou foi o sentimento de pertencimento. E o compromisso com a memória do nosso povo. Anajás tem uma história muito rica, mas por muito tempo ficou invisível. E eu entendi que se nós mesmos não contarmos a nossa história, ela corre o risco de se perder ou de ser contada por outros de forma incompleta.

O processo de reunir fotos, documentos e relatos para o livro foi um verdadeiro trabalho de escuta e garimpagem. Visitei famílias antigas, ouvi muitos moradores, pesquisei em arquivos públicos, e até encontrei registros esquecidos em baús e gavetas. Cada foto, cada relato oral, cada documento foi tratado com respeito e carinho, pois carrega a alma do nosso povo. O livro nasceu dessa soma de vozes, imagens e lembranças que formam o que somos hoje. É uma homenagem viva à Anajás e seu povo.

Em 2023, você se tornou uma ponte entre arqueólogas e a população no resgate de materiais arqueológicos, como cerâmicas e urnas que apareceram em sua região por causa da estiagem e da baixa dos rios. Como foram esses momentos?

Foram momentos de muita emoção e também de responsabilidade. A seca nos rios de Anajás revelou fragmentos do nosso passado e quando começaram a aparecer as urnas, cerâmicas e outros vestígios, percebi que aquilo não podia ser ignorado. Então entrei em contato com os arqueólogos que já tinham interesse pela região e juntos construímos uma relação de respeito com a comunidade. Expliquei a importância de preservar e de não mexer nos objetos sem orientação. Os moradores entenderam que aquilo fazia parte da nossa própria história. Foi bonito ver o envolvimento das pessoas ajudando, indicando locais, cuidando dos achados. Esses momentos mostraram que ciência e saber popular podem caminhar juntos. Me senti como uma ponte entre dois mundos: do saber acadêmico e a sabedoria da comunidade ribeirinha.

Qual a importância de ter alguém da própria região em contato e atuando junto com pesquisadores? Há algo a melhorar nesse diálogo?

Ter alguém da própria região atuando com os pesquisadores é fundamental. A pessoa local conhece o território, os modos de vida, os costumes, as histórias e até os lugares que só quem é de dentro consegue acessar. Isso facilita o trabalho de campo, cria confiança com a comunidade e evita interpretações distorcidas da nossa realidade. E, além disso, esse contato aproxima a ciência do povo. A pesquisa deixa de ser algo distante e passa a ser construída com quem vive ali. Isso fortalece a identidade local e valoriza os saberes tradicionais. Claro, ainda há o que melhorar. Às vezes, os pesquisadores chegam com uma linguagem muito técnica e com pouco tempo para escutar quem está no lugar. Acredito que o diálogo pode ser cada vez mais horizontal, mais respeitoso e contínuo. Quando há troca verdadeira, todos ganham: a ciência avança e a comunidade se sente parte do processo.

E que formatos ou iniciativas o professor considera mais eficazes para fortalecer essa troca de conhecimento e a devolutiva das pesquisas às comunidades locais?

A devolutiva é essencial. Quando os pesquisadores voltam pra mostrar o que foi descoberto, eles demonstram respeito pela comunidade e pelo território. Isso fortalece o vínculo e mostra que o conhecimento construído ali não é levado embora, mas retorna como valorização da nossa história e identidade. Acho que o mais eficaz é usar formatos acessíveis à comunidade. Roda de conversa, exposição com fotos, objetos ou mapas, oficinas e escolas, cartilhas ilustradas e até vídeos curtos. Quando as pessoas se veem apresentadas nesses materiais, o saber ganha vida. Também é importante incluir lideranças locais, professores e jovens nesse processo, pois são eles que vão continuar esse trabalho no futuro. A ciência precisa dialogar com a cultura local. Só assim a troca de conhecimento será verdadeira, viva e transformadora.

No momento em que pesquisadores voltam pra mostrar o que foi descoberto, eles demonstram respeito pela comunidade e pelo território. Isso fortalece o vínculo e mostra que o conhecimento construído ali não é levado embora, mas retorna como valorização da nossa história e identidade.

[Ouça este trecho da entrevista]
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Professor Rossimar no primeiro encontro do projeto Amazônia Revelada, no Museu da Amazônia (MUSA).

Em um episódio do podcast Marajoara cultural, o professor comentou sobre a importância das novas gerações conhecerem as histórias locais. Como você acredita que a arqueologia pode ser contada para que as comunidades valorizem e transmitam estas memórias às próximas gerações?

Eu acho que a arqueologia deve ser contada de forma mais simples, viva e próxima da realidade das pessoas, não como algo distante ou só para especialistas, mas como parte da nossa própria história, da nossa terra, do nosso povo. Acredito que é preciso usar a oralidade, que é forte na nossa cultura, aliada às imagens, desenhos e objetos. Levar essas histórias para dentro das escolas, para as rodas de conversa, para os encontros comunitários. Quando uma criança escuta sobre um pedaço de cerâmico encontrado no seu próprio quintal, ela entende que ali existe um passado que precisa ser respeitado e preservado. Também defendo que os mais velhos tenham voz nesse processo. Eles são guardiões da memória. e pode ajudar a conectar o saber arqueológico com o saber tradicional. Assim, as novas gerações crescem com orgulho de suas raízes e se tornam defensoras de sua própria história, né

Sobre as novas gerações, o que acha das redes sociais? Elas podem ser aliadas no ensino e na divulgação do patrimônio arqueológico entre jovens?

Sim, com certeza. As redes sociais podem e devem ser aliadas nesse processo. O jovem de hoje vive conectado, então precisamos falar com ele na linguagem e nos espaços que ele usa. Pequenos vídeos, fotos de achados arqueológicos, relatos de moradores, tudo isso pode gerar curiosidade e fortalecer o sentimento de pertencimento. Mas isso precisa caminhar junto com a escola. O ensino da arqueologia poderia melhorar se estivesse mais presente nos conteúdos locais, mostrando que o Marajó não é só o cenário de pesquisas externas, mas território de um povo com história milenar. Professores capacitados, materiais didáticos contextualizados e parcerias com as universidades ajudariam muito nesse processo, nesse avanço. Quando o jovem vê que aquele pedaço de cerâmica no museu pode ter vindo do terreiro do seu avô, ele se conecta. E quando isso aparece também nas redes, com linguagem acessível, ele compartilha, comenta e vira multiplicador da memória. A tecnologia, quando usada com respeito e criatividade, pode ser ponte entre o passado e o futuro.

Quando o jovem vê que aquele pedaço de cerâmica no museu pode ter vindo do terreiro do seu avô, ele se conecta. E quando isso aparece também nas redes, com linguagem acessível, ele compartilha, comenta e vira multiplicador da memória.​

E para finalizar, há alguma história ou experiência que o professor gostaria de compartilhar?

Sim, gostaria de compartilhar que para mim, a arqueologia vai muito além dos artefatos e documentos. Lembro-me muito bem de uma certa manhã, quando encontrei uma peça de cerâmica antiga às margens do Rio anajás e senti que aquela pequena descoberta guardava a vida de muita gente que viveu aqui antes de nós. Foi como se o rio estivesse sussurrando uma história esquecida, esperando para ser contada. Por isso, acredito que nossa missão é escutar esses ecos, respeitar os saberes tradicionais, e construir juntos uma narrativa que honre nossa identidade ribeirinha. Que a memória de Anajás não se perca, mas floresça em cada canto, em cada palavra, em cada gesto de cuidado com nossa terra e nossa cultura.

Eu escrevi uma poesia para este momento, seu nome é “Se eu não contar a minha história, quem contará por mim?”.

[Ouça abaixo a poesia completa recitada pelo Professor Rossimar da Nóbrega:

Esta entrevista foi realizada por Lisiane Müller, cientista multimídia que desenvolve o projeto “Amazônia Revelada: narrativas digitais e uma arqueologia para o futuro”, com apoio da FAPESP (processo nº 2024/15228-1).

*As opiniões, hipóteses e conclusões ou recomendações expressas neste material são de responsabilidade da autora e não necessariamente refletem a visão da FAPESP.

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