NARRATIVAS DIGITAIS E UMA ARQUEOLOGIA PARA O FUTURO

Nesta série de entrevistas, integrantes e colaboradores do Amazônia Revelada compartilham experiências e refletem sobre o papel do patrimônio arqueológico na Amazônia, em uma rede construída por ciência, comunidades e territórios.

Q & A

"Não somos projetos ou meros informantes. Nós somos parceiros."

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Nesta nova conversa da série Amazônia Revelada, a ceramista e produtora cultural Cilene Oliveira Andrade nos conta sobre sua relação com a arqueologia e a importância de construir relações de confiança entre pesquisadores e comunidades no Marajó.

Moradora de Soure, Cilene também compartilha sua trajetória de mais de duas décadas à frente, ao lado de seu companheiro, Ronaldo Guedes, do Ateliê Arte Mangue Marajó, onde desenvolvem um trabalho de pesquisa, formação e valorização da cerâmica marajoara.

Ao longo de nossa conversa, ela aborda os limites de uma arqueologia que não devolve seus resultados, o encontro entre o saber científico e o saber do fazer e a importância de aproximar pesquisa, ancestralidade, memória e vida cotidiana.

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Cilene na tradicional roda de Carimbó da AMPAC (Associação dos Moradores do Bairro do Pacoval) 📸 @pierreaazevedo

Cilene Oliveira Andrade nasceu em Soure, na Ilha do Marajó, e sempre morou por lá: “moro aqui a minha vida toda”, diz ela, como quem destaca não um destino, mas sua força, sua raiz. Foi em Soure que conheceu Ronaldo Guedes, hoje seu companheiro de vida e de ofício, “o artista dessa história”, diz ela, complementando: “e pesquisador, um estudioso”. Um dia, ele chegou em casa com uma saquinha de barro nas mãos. Não sabiam eles, mas esse gesto despretensioso geraria um dos projetos mais ativos de salvaguarda da cultura marajoara contemporânea.

Em 2003, nasceu o Ateliê Arte Mangue Marajó, fundado pelo casal no bairro do Pacoval, em Soure. Ao longo de mais de duas décadas, os dois transformaram a iniciativa em um espaço de pesquisa, educação e resistência cultural, com passagens por exposições nacionais e internacionais, como a que o coletivo apresentou no Americas Society, em Nova York.

O trabalho de Cilene, no entanto, vai além da cerâmica. Ela é também produtora do grupo de carimbó Tambores do Pacoval e cofundadora da AMPAC, a Associação dos Moradores do Bairro do Pacoval. É coautora, ao lado de Marcelle Lima, do livro Cerâmica Marajoara: a História Continua, somando à prática cotidiana do ateliê a preocupação constante em registrar, formar e devolver conhecimento a quem, muitas vezes, foi historicamente excluído dele.

Nesta conversa, ela fala sobre arqueologia, ciência, memória, e sobre o que significa, afinal, pertencer a uma terra que, nas palavras dela, “é viva […] e tem argila para todo lado”.

O primeiro contato [com a arqueologia] foi uma das questões críticas que nós enfrentamos no começo do trabalho. Lidar com essa arqueologia antiga. Aquela que vem, só usa as informações que tu tens, e vai embora, publica e não devolve nada.
Só usa a comunidade como fonte de informação.

Cilene, como foi o seu primeiro contato com a cerâmica marajoara e com a arqueologia?

Eu nasci em Soure, na ilha de Marajó. Morei aqui, moro aqui a minha vida toda. A arqueologia só vai entrar na minha vida quando eu e Ronaldo começamos a trabalhar com cerâmica. Antes disso, eu não vou ter nenhum contato, porque às vezes a gente até escuta sobre arqueologia em si, mas não conhece de verdade.

A partir do momento que nós começamos a trabalhar, estudar e pesquisar a cerâmica da cultura marajoara, esse nome arqueologia começou a nos acompanhar. Cerâmica, marajoara, arqueologia, antropologia entraram todos nesse pacote de palavras que a gente começou a pesquisar e a usar também no nosso trabalho.

Depois desse primeiro contato, como tem sido construir uma relação de confiança com a pesquisa acadêmica e com pesquisadores que chegam até vocês?

Olha, o primeiro contato foi uma das questões críticas que nós enfrentamos no começo do trabalho. Lidar com essa arqueologia antiga. Aquela que vem, só usa as informações que tu tens, e vai embora, publica e não devolve nada. Só usa a comunidade como uma fonte de informação. Isso, no início do nosso trabalho, foi um problema, porque nós não achávamos material pra pesquisa. A gente teve que ir tentando de tudo que é jeito, falando com um, com outro, para ver se a gente conseguia material.

Já faz algum tempo que a gestão do Museu Goeldi ajudou a aproximar a arqueologia da gente: a Cristiana (Barreto), a Helena (Lima), a Mayara (Mariano), o Tijolo, o Eduardo (Neves). Todos eles vêm com uma proposta nova, que valoriza mais a comunidade e devolve resultados pra gente. Isso é muito importante, porque boa parte do apagamento da memória e da ancestralidade dos povos é também por conta dessa retirada de objetos e informações que não se devolvem. Muitas pesquisas são publicadas em inglês, por exemplo, e ficam reservadas a algumas poucas pessoas. A gente ainda enfrenta muito isso.

E como você conheceu o Amazônia Revelada?

A primeira pessoa que me falou do projeto foi a Cristiana Barreto. A gente já vinha conversando há algum tempo, sempre nessa busca de pensar que o Marajó precisa revelar também muitos sítios ainda. Muitos desses locais estão dentro de propriedades particulares, e muitos não querem que eles sejam descobertos, que eles apareçam. Foi a partir do assunto sobre essa necessidade de pesquisa que conheci o projeto. Mas o Amazônia Revelada ainda estava pesquisando em outros locais, distantes da gente. Talvez em 2022 ou 2023 é que a gente começou a discutir sobre o projeto acontecer também no Marajó.

Boa parte do apagamento que acontece na memória, na história, na ancestralidade dos povos, é também por conta dessa retirada de objetos e de informações que não se devolvem. Muitas das pesquisas, por exemplo, são publicadas em inglês. Ficam reservadas a algumas poucas pessoas que se acham detentoras desse conhecimento.

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Cilene no primeiro encontro do projeto Amazônia Revelada, no Museu da Amazônia (MUSA).

Sobre esse encontro entre o saber científico e o saber prático, o saber do fazer. Na sua visão, o que ainda falta para que essa troca entre ciência e comunidade aconteça da forma ideal?

Uma coisa é tu estudar, tu escrever sobre um assunto. Outra coisa é tu experimentar. Essas duas ciências juntas, elas vão gerar, eu acredito, um resultado muito melhor, porque você vai ter o saber do fazer e o saber científico. O pesquisador estuda a peça, olha, mede, faz isso, faz aquilo outro. Mas como é que essa peça foi feita? Qual a técnica que foi aplicada? A prática pode ajudar muita gente a entender sobre processos.

Nós, enquanto população local, sentimos o vento, sabemos por onde o rio enche: quantos braços de igarapé tem, quantas caças, se está perto da mata. Eles podem ter construído nesse lugar porque por aqui era melhor para chegar. Esse é o saber do meu viver. Quando esses dois mundos se atrelam, existe um resultado bom, principalmente quando vem com educação patrimonial, como o que aconteceu em Manaus, naquele primeiro encontro dos parceiros do projeto.

Qual tem sido o seu maior aprendizado nesses tantos anos trabalhando com cerâmica?

O trabalho com o barro sempre vai ser uma experiência. Nunca tu estás capacitado o suficiente para fazer esse trabalho manual. Ele sempre está te ensinando. Às vezes parece que está tudo certo, mas de repente… teve uma última queima que o Ronaldo fez, parecia que estava tudo certo. Quando a gente foi tirar as peças, elas ficaram escuras: “ah, foi porque nós colocamos aquela lenha no final da queima.” Então coisas que a gente achava que não ia mais errar na vida, a gente ainda erra. E o fogo, sempre ensinando. Tem muito disso, de a gente estar sempre aprendendo. Nosso trabalho já ganhou uma proporção, nesses vinte e tantos anos, mas a gente está sempre com esse cuidado da delicadeza, do fazer o bem feito, do experimentar, mas nunca perdendo esse vínculo de conexão com a ancestralidade.

Você comentou sobre os problemas de uma arqueologia que extrai conhecimento e não devolve nada à comunidade. Na prática, como o ateliê tenta construir essa relação com cientistas e com Soure?

Não somos projetos ou meros informantes, nós somos parceiros. Afinal de contas, sem o nosso conhecimento, os projetos teriam problemas. Para além disso, eu acredito que é preciso ouvir a comunidade, ouvir o que ela mais deseja, de fato, e contribuir com algum projeto de devolução. Pra podermos falar: “nós fizemos isso e aquilo em parceria com essas pessoas, e agora estamos devolvendo esse projeto aqui para as escolas, por exemplo.” E colocar não só nas redes sociais, não só no YouTube, mas através de palestras, dizendo para essa comunidade o que foi que descobrimos. Assim, eu acho que a gente consegue trazer relações de confiança mesmo, através do compartilhar mais.

Minha expectativa com o Amazônia Revelada é que eles um dia também venham pra Soure devolver os conhecimentos pra comunidade. Quem sabe fazer uma cartilha, entregar nos municípios. Porque aqui ainda funciona muito o manual; nosso tempo é outro, a gente ainda vive muito no fazer, no pegar as coisas, construir as coisas.

Como você entende a relação entre a cerâmica marajoara antiga e a que vocês fazem hoje?

Apesar da ruptura muito grande nesse tempo, já que a cerâmica marajoara deixou de ser feita há milênios, nosso trabalho de retomada tem pouco mais de duas décadas. São 23 anos: pouco tempo para o tempo que se produziu por aqui, né? Estamos fazendo peças novas, mas com a mesma tecnologia. Continuamos usando o barro, o chamote, o engobe, que é tinta de pedra; continuamos fazendo os desenhos nas peças.

E, embora essa ruptura tenha acontecido, existe algo muito semelhante: todas as peças estavam, e estão, em extrema conexão com a natureza, com esse olhar sobre o que nos circunda e com o meio ambiente. Se hoje o Ronaldo faz um caranguejo grande, na cerâmica antiga já existe uma vasilha com um siri; as peças antigas têm cabeças de pássaro, de tartaruga. Existe uma semelhança atemporal, acho que é até espiritual, na forma como representamos a natureza. Mesmo com uma distância grande entre o objetivo de quando produziam e o de hoje, a relação nesse fazer continua muito íntima.

Passados mais de vinte anos à frente do ateliê, e depois de tantas parcerias construídas com a pesquisa, o que a cerâmica representam pra você hoje?

Olha, um dia me perguntaram: o que o tambor significa para você? E eu digo que é a mesma coisa que perguntar o que a cerâmica significa, ou o que a AMPAC significa.

Esse é o meu jeito de existir nesse mundo. As coisas estão intimamente dentro de mim. Eu vivo todos os dias o ateliê, a cerâmica, o carimbó, a AMPAC, assim como vivo todos os dias a minha família.

A gente vem fazendo esse trabalho de formação desde o início. Falar de formação é falar de educação, e a educação leva tempo. Desde o começo do ateliê, a própria cerâmica já vem reeducando; agora temos que mostrar isso à população, não só através de oficinas, mas de rodas de conversa. A AMPAC acabou de ganhar um projeto sobre memoriais, e estamos trabalhando para viabilizar o memorial da cerâmica marajoara, principalmente através do nosso manifesto de repatriação (leia o manifesto aqui).

Por falar em formação e difusão do conhecimento, o  que isso significa no dia a dia do ateliê? Como acontece essa prática? 

A formação e a difusão basicamente acontecem todos os dias: quando ganhamos um edital e promovemos uma oficina, ou quando uma criança, uma escola, vem até aqui. É formação, é educação, é diário. Esse contato é fundamental. Quando as crianças começam a vir ao ateliê, com sete, oito anos, e você dá a elas a argila e conta um pouco da história, quanto mais cedo isso acontece, mais transformador é na vida delas. Elas podem não ser exatamente ceramistas, mas vão entender sobre a própria ancestralidade, sobre a formação do seu povo, sobre como construir uma relação com essa identidade. Estamos numa terra fértil, que pulsa argila e história rica pra todos os lados. O ateliê traz difusão e visibilidade para um tema que, antes, ficava enterrado como as próprias cerâmicas.

Quando as crianças começam a vir ao ateliê, com sete, oito anos, e você dá a elas a argila e conta um pouco da história, quanto mais cedo isso acontece, mais transformador é na vida delas. (...)
Estamos numa terra fértil, que pulsa argila e história rica pra todos os lados. O ateliê traz difusão e visibilidade para um tema que, antes, ficava enterrado como as próprias cerâmicas.

Pra gente finalizar, você mencionou sobre um sonho de ver a cerâmica marajoara alcançar o mesmo reconhecimento de outras tradições, a expectativa em torno do inventário pelo IPHAN. O que a motiva por essa busca por reconhecimento oficial?

O sonho era que no Marajó as pessoas tivessem uma referência tão grande de cerâmica, que a economia girasse em torno disso e a sociedade fosse reconhecida pela sua ancestralidade. Se o inventário for aprovado pelo IPHAN, teremos reconhecimento, valorização, mais gente produzindo e conhecendo essa ancestralidade, importante numa região de 16, 17 municípios que poucos conhecem, mesmo dentro do Pará.

Você imagina eu estudar minha vida toda sobre a cerâmica da Grécia, da Inca, e só ter contato com a daqui depois de adulta e não pela universidade, mas pelo contato material com a terra? Você entende o absurdo? É por isso que lutamos pelo inventário, pela identidade geográfica, pela repatriação: para trazer esses olhares pra uma cerâmica que é nossa, da Amazônia, do Brasil, pro desenvolvimento não só econômico, mas educacional, através de letramento sobre essa história de tudo o que a gente construiu e vem construindo. 

E uma coisa muito fundamental é mostrar que essa cerâmica está viva. Ela não está no passado, ela está viva, e muito viva, porque depois do ateliê, outros ateliês abriram, outras pessoas começaram a estudar. A escola tem referência para isso, as escolas já vão em vários outros ateliês. 

E qual papel que a tecnologia pode cumprir na preservação desse patrimônio, como você enxerga um arqueologia do futuro no Marajó?

Aqui a gente está no nível do mar, e muitos tesos já analisados podem desaparecer. Quem está no nível do mar, Soure, Belém, Cachoeira do Arari, Santa Cruz do Arari, e mais algumas regiões, ou tem seca que prejudica muito, ou as cheias que também prejudicam muito os nossos sítios arqueológicos e os lugares de habitação. Nisso eu vejo que a tecnologia, como a do Amazônia Revelada, é extremamente importante porque, mesmo sem conseguir chegar presencialmente a esses lugares, ela pode ajudar a registrar coisas que, daqui a alguns anos, talvez não tenhamos mais como acessar por causa das mudanças climáticas. Uma outra forma que a gente também pode estar caminhando juntas, é quando essa arqueologia está acompanhada com a comunidade; Quando ela chega com esses projetos, não só de pesquisa, mas com devolutivas e materiais que vão ficar aqui.

Quanto mais cedo as comunidades tiverem acesso as pesquisas, melhor. Quanto mais cedo a comunidade puder saber das suas ancestralidades, do que gerações anteriores faziam no lugar onde elas cresceram. Porque o que se torna cultura, se torna hábito, costume, se torna memória. A arqueologia do futuro tem que estar associada com a tecnologia. E essa tecnologia tem que estar  conosco. Acharmos um meio de juntar tudo isso com a natureza, com o meio ambiente e com as comunidades.

Esta entrevista foi realizada por Lisiane Müller, cientista multimídia que desenvolve o projeto “Amazônia Revelada: narrativas digitais e uma arqueologia para o futuro”, com apoio da FAPESP (processo nº 2024/15228-1).

*As opiniões, hipóteses e conclusões ou recomendações expressas neste material são de responsabilidade da autora e não necessariamente refletem a visão da FAPESP.

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