NARRATIVAS DIGITAIS E UMA ARQUEOLOGIA PARA O FUTURO

Nesta série de entrevistas, integrantes e colaboradores do Amazônia Revelada compartilham experiências e refletem sobre o papel do patrimônio arqueológico na Amazônia, em uma rede construída por ciência, comunidades e territórios.

Q & A

"O grande empreendimento que as populações na amazônia conquistaram, ao longo do tempo, foi a floresta de pé."

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Professor e arqueólogo, Dr. Carlos Augusto da Silva (UFAM) é um dos coordenadores do Amazônia Revelada. Nesta entrevista, ele fala da trajetória que o levou à arqueologia e nos convida a pensar sobre uma ciência que escuta os territórios, reconhece saberes ancestrais e pensa o futuro da floresta como responsabilidade coletiva.

Dr. Tijolo no Alana Ideia Fest. Organizado pelo Instituto Alana, festival palco para o lançamento do documentário O Brasil antes de 1500. Fonte: Acervo do projeto.

Dos campos e dos rios para a cidade – e não o contrário. É assim que o arqueólogo e professor Dr. Carlos Augusto da Silva, conhecido na arqueologia como Dr. Tijolo e um dos coordenadores do projeto Amazônia Revelada, entende que a arqueologia amazônica deve começar a se reconstruir: através do diálogo e com respeito aos territórios, às comunidades e aos saberes ancestrais.

Nascido em Manaquiri, no Amazonas, e diretamente ligado a povos originários da região – com herança Munduruku por parte de pai e Apurinã, da Amazônia Central, por parte da avó materna – Tijolo constrói seu trabalho há décadas entre a pesquisa arqueológica e as experiências vividas nos territórios amazônicos.

Cientista social, com mestrado e doutorado em Arqueologia Amazônica, já percorreu inúmeras regiões na Amazônia em pesquisas de campo. Hoje ele reflete sobre práticas tradicionais, educação, escola e a responsabilidade coletiva da arqueologia diante das transformações políticas e ambientais que estão acontecendo no presente.

Uma vez a gente estava no Acre, trabalhando em um geoglifo, e a gente foi em uma escola falar sobre o que era [a arqueologia]. Aí o pessoal perguntou: “Mas vocês estão todos sujos aqui na escola?”, e a gente disse que nosso trabalho é assim mesmo. "A gente trabalha é com a terra.”

1) Professor, como o senhor se interessou pela arqueologia?

Na escola, eu gostava mesmo era de matemática. Mas, no ensino médio, eu tive professores que falavam de história e aquilo começou a me deixar meio que fascinado. Eu comecei a gostar não só da história, mas também da geografia. Essa coisa de olhar com mais precisão para os lugares. Depois, na graduação em Ciências Sociais, aprendi todos os clássicos, a Idade das Luzes, todo o período clássico, eu fui me inteirando disso tudo.

Quando terminei a graduação, o professor Francisco Jorge, da Universidade Federal do Amazonas, me fez um convite: um museu estava sendo fundado e, no regimento dele, havia uma divisão de arqueologia. O nome do museu era “Museu Amazônico”, teria todo esse arcabouço teórico da cultura material e ele me chamou para gerenciar essa divisão.

Na época eu falei: “Professor, eu não tenho nenhuma experiência em arqueologia”. Mas você sabe como é o ser humano, né? É intrometido, gosta de se envolver rs. A partir dessa proposta, fui para o Museu Goeldi, fiz um curso de especialização e assim tive meu primeiro contato profissional com a arqueologia da Amazônia.

2) Quais foram as experiências e as referências que marcaram essa sua época?

Nesse primeiro contato, eu tive duas pessoas-chave pra entender mais ou menos o que era arqueologia. Uma foi a professora Dirce, que tinha acabado de defender o doutorado sobre a terra preta na Amazônia. A outra foi o Michael Heckenberger, que trabalhava com os povos do Xingu.

Numa etapa de campo, na Estação Científica de Caxiuanã, do Museu Goeldi, o Michael ficava trabalhando ali a noite toda. Durante o dia, quando a gente ia para o campo, ele ficava contando histórias. Isso foi me envolvendo. A consequência disso é que eu estou envolvido diretamente com o patrimônio arqueológico até hoje.

3) Como o professor entende a arqueologia e o papel histórico das populações amazônicas?

Eu penso que a arqueologia é uma ciência social, como qualquer outra. Ela trabalha com todo esse contexto do passado, mas também com o presente, com o que é a Amazônia hoje. A arqueologia tem essa longa história, e essa longa história é a que as populações, ao longo do tempo, conseguiram empreender e deixaram como empreendimento. A meu ver, o grande empreendimento que as populações na Amazônia conquistaram, ao longo do tempo, foi, exatamente, a floresta de pé.

A floresta hoje é uma espécie de guarda-chuva pra mim. Essas populações tiveram o olhar de construir uma grande poupança, e essa poupança, à medida que foi melhorando e recebendo novas contribuições, foi dando possibilidades para essas mesmas populações. A literatura mostra que, quando portugueses, espanhóis, holandeses e franceses chegaram aqui, já havia milhares de indivíduos vivendo e trabalhando exatamente com a terra, a floresta e a água.

Esse tripé, terra, floresta e água, aparece também ainda no tempo presente das comunidades, mas agora ligada também a uma nova expressão: o extrativismo.

Hoje, o nosso maior problema é essa ideia de extrair. Nós temos um problema seríssimo de extração sem reposição dos estoques. E não só do estoque de vida, mas também do estoque de prazer em estar e viver nesses espaços. Penso que a arqueologia tem essa premissa de resgatar o grande legado de vida que existiu nesse passado da Amazônia e conectar diretamente com o período contemporâneo.

[Ouça este trecho da entrevista]
Dr. Tijolo, cocoordenador do Amazônia Revelada, no primeiro encontro do projeto, no Museu da Amazônia (MUSA).

4) O que a arqueologia pode fazer para se aliar à proteção da floresta e dos territórios? E como um projeto científico como o Amazônia Revelada pode contribuir politicamente para a defesa dos direitos dos povos da floresta no presente?

Eu penso que é preciso manter o estoque de espécies da floresta. Esses estoques foram multiplicados a partir de ação coletiva passada, uma ação não só das pessoas que aqui estavam, mas também de centenas, milhares de animais que ainda estão aqui. Essa força de trabalho dessa história ancestral conjunta, mais a metodologia do Amazônia Revelada com tecnologia, são dados importantes para construir diálogo. Nossa meta é que esse diálogo vire, no futuro, uma espécie de política pública.

A propósito, eu tenho recebido contatos pedindo que eu dê uma olhada em tal ambiente. Fomos agora em janeiro a uma comunidade indígena em Kwari, e esses povos têm exatamente isso: uma biblioteca do tempo, cheia de espécies nobres. O projeto está com uma bolsa cheia de dados coletivos e são eles que podem ajudar a resguardar, proteger e multiplicar as espécies que ainda temos aqui na Amazônia.

E isso precisa chegar também nas escolas: o que a floresta representa hoje para a vida da Amazônia? A floresta não é só alimento. É também a nossa saúde, da Amazônia, do Brasil e, eu até digo, do mundo. A floresta é vida, e sendo vida precisa ser tratada com carinho e responsabilidade. Esse é o âmago do nosso projeto: manter a proteção da floresta e das vidas na Amazônia.

5) E como o projeto tenta deixar esse aprendizado como legado?

O projeto, de fato, é uma rede. Vou brincar aqui: ela está no norte, no sul, no leste e no oeste da Amazônia. E agora, com as mídias sociais, essa rede de informação está sendo bem importante para divulgar o que a arqueologia pode contribuir para manter esse legado produzido por trabalhos coletivos. A forma como o projeto atua é uma forma de trabalhar essa grande biblioteca de saberes que nós temos.

Quando esses povos introduziram a troca de espécies entre ecossistemas, de várzea e de terra firme, eles fizeram uma espécie de consórcio, e esse consórcio é muito visível nos sítios arqueológicos. Por isso eu penso que um sítio arqueológico aqui na Amazônia é uma espécie de banco, de supermercado, que tem alimento para todas as vidas, do menor ao maior ser vivo. A arqueologia presta um trabalho científico, mas também um trabalho ambiental, para manter o registro desse estoque de vida contemplado. Esse é um legado que a arqueologia pode deixar para as pessoas e para as nossas escolas brasileiras e amazônicas, que ainda não têm um calendário específico para dialogar sobre essa grande história da Amazônia.

6) Agora, se tratando de ciência e comunicação, como  o professor pensa sobre os cuidados necessários na divulgação de resultados? 

Eu penso que a arqueologia e o jornalismo são como uma orquestra sinfônica: a arqueologia na Amazônia é uma espécie de conjunto de disciplinas, e essas disciplinas formam uma rede, ou seja, é muito transdisciplinar. Já o jornalismo é uma espécie de autorretrato, é ele quem pode construir o que essa história representa hoje para a Amazônia e para o Brasil e até em nível mundial. 

A floresta precisa ser divulgada, e aí entra o gancho do jornalismo. Ela é uma espécie de professora do tempo, e a gente precisa multiplicar essas informações. O jornalismo e a arqueologia devem ser parceiros para mostrar que a história desses povos foi construída e planejada, como parceiros: uma aliança de contextos plurais, em que o maestro deve ser a ciência e o conhecimento que estão disponíveis nos sítios arqueológicos.

7) As principais áreas de atuação do projeto estão no arco do desmatamento. Como o senhor pensa o desmatamento a partir da arqueologia?

O desmatamento funciona assim: mete o trator, derruba tudo, e depois vem a multa. Paga a multa e estraga mais o ambiente. Ele vem junto com a produção de produtos não orgânicos, e aí você precisa envolver toda a questão cultural. Aqui na Amazônia, se eu tenho dez espécies em dez metros quadrados e vou plantar, plantar múltiplo é diferente de plantar soja. Quanto mais a monocultura avança, pior fica para o meio ambiente. O desmatamento é um problema ambiental, social e também econômico, porque, à medida que uma espécie é ceifada, a economia também diminui.

E tem outra questão: algumas comunidades têm horror de cidade, mas outras querem exatamente ir para a cidade. Como equacionar isso? Eu acho que só com uma boa política pública, pensada coletivamente, que venha do campo para a cidade e não o contrário. E uma das entidades que poderiam mudar esse quadro, me parece, é a escola. Talvez a escola seja essa grande dimensão pra mudança.

Uma vez eu estava no Acre, escavando um geoglifo, e fomos a uma escola falar sobre o que era arqueologia. O pessoal perguntou: “mas vocês estão todos sujos e estão aqui na escola?”. E nós dissemos: “nosso trabalho é assim mesmo. A gente trabalha com a terra”. Então, veja. Geralmente quem faz faculdade quer se espelhar numa espécie de túnel de beleza, e não é isso. O conhecimento científico é trabalho. A arqueologia é trabalho.

8) E como pensar na prática sobre esse trabalho e esse cuidado que o senhor fala?

Só para dar um exemplo. Em 2013, fizemos um trabalho no Capuaçu, e um senhor da etnia Mura me disse:

“Tijolo, quando me encomendam uma canoa, eu faço toda uma averiguação de onde está a espécie que vai dar pra fazer uma canoa de 10, 15 palmos, algo em torno de 6, 7 ou 8 metros de comprimento. Mas, pra fazer isso, eu tenho que repor esse estoque. E como eu vou fazer? Eu vou levar seis itaubinhas e colocar em torno da mãe [árvore] que eu tirei.”

Ele falou mãe. “Mãe” porque rio, terra, tudo é mãe, é parente. Então, como é que eu vou sacrificar o meu parente para me dar bem? Eu acho que essa foi a grande política dessas populações do passado, essa questão democrática, do cuidado. Como eu vou tirar uma vida, se para mim ela importa? Eu posso tirar, mas tenho que repor essa vida.

Uma outra vez também estávamos visitando o povo Juma, e lá trabalha o seu Jacob, há mais de 60 anos. Ele nos disse que, segundo os cálculos dele, tem uma área com mais de 1.200 castanheiras. Ele trata as castanhas como se fossem uma parte do corpo dele, da família dele. Todas têm nome. Tem uma bem enorme, que ele chama de vovó, e que nos anos bons de produção dá cerca de meia tonelada, 500 quilos de semente de castanha para ele e para a família. Elas produzem tanto, porque tem muita água. Todo o território é cercado por água.

A vovó, quase ninguém sabe, mas ele calcula que tem mais de 500 anos. Veio do bisavô para o avô, pro pai e agora está com ele, quatro gerações. Só somando 80 anos de cada um já dá quase 300, então é muito mais. E agora está mais ou menos confirmado que esse castanhal é um sítio arqueológico.

Por isso o sítio arqueológico, para mim, é a casa da ciência ancestral. Eles precisavam, então o que faziam? Investiam. Cuidavam. E os povos que estão hoje no período contemporâneo ainda mantêm isso. Se a gente olhar rapidamente em torno de uma aldeia, de uma casa desses povos, quantas espécies diferenciadas tem. São sistemas de linguagens que estão ali, uma biblioteca viva, conduzida. A ciência precisa ter essas noções, e para isso o cientista precisa estar lá, em parceria com esses povos.

9) O senhor acha que falta essa parceria em outras ciências? E como o senhor imagina a arqueologia do futuro na Amazônia?

Eu penso que o pessoal das ciências naturais, às vezes, não acredita muito nesses povos. Pesquisa sozinho, acha que conhece tudo, e o trabalho sai meio despedaçado. Vou brincar com você aqui, acho que é uma espécie de orgulho do cientista, de dizer que não precisa de ninguém das comunidades. Em realidade, um ser humano precisa do outro. Eu tenho muita tecnologia, mas, se não tiver o satélite, você não anda. E esse pessoal sabe andar, conhece tudo, com satélite ou sem satélite.

Esse é o lado negativo de algumas ciências, o de não procurar essa parceria. É uma espécie de não aprender a lição de casa. A parceria com as comunidades é a grande virtude do Amazônia Revelada pra mim.

Sobre o futuro, eu penso que a arqueologia, diante das novas políticas do Estado brasileiro, pode ter uma longevidade, mas também pode ter uma idade muito curta. À medida que houver mais união entre as ciências, isso pode contribuir, porque a arqueologia depende das outras ciências para manter esses ambientes de conhecimento.

Pensar o futuro da arqueologia na Amazônia é pensar em manter a floresta. Mantendo a floresta, os sítios arqueológicos estarão vivos, já que a própria floresta também é um dado arqueológico produzido por esses povos. O futuro da arqueologia depende das pessoas e de uma política pública contemplativa, que assegure o saber dessa história que esses povos produzem há milênios aqui na Amazônia.

10) Para finalizar, qual mensagem o professor deixaria para as novas gerações de estudantes de arqueologia? Como devemos construir uma arqueologia pro futuro na sua visão?

Eu costumo brincar que a história do Brasil são duas: a história da agonia e a história da alegria. A da agonia é alguém tomar o seu território, com a justificativa de que, como ele não produz, eu tenho que tomar conta para fazer ele ficar forte. Nos livro de história, com as chamadas capitanias hereditárias, foi isso que foi feito. Dividiram o território de um povo, que eu não sei se estava bem ou mal, para outro povo, os europeus, que talvez estivessem pior do que os daqui. Eu acho que foi em 2022 ou 2023 que o Estado português reconheceu e pediu desculpas pela agressão, por uma série de barbaridades contra as vidas desses povos.

Há também outra coisa que me deixa triste quando vejo num livro: a chamada “economia de subsistência”, usada para falar da economia dos povos originários. Se subsiste, significa que o cara está no caminho da morte, não é? Eu acho que isso deveria sair até da linguagem educacional. Para ser bem didático, eu penso em uma peça arqueológica, pintada, desenhada, das coisas mais apreciadas, ou seja, da cerâmica arqueológica da Amazônia. Se você é o artista que produziu, uma coisa me parece certa, essa pessoa não devia estar com fome. Quem tem fome não consegue fazer nada, não tem paciência pra nada. Eu acho que essa fome na Amazônia foi uma coisa construída. Essa pra mim é a história da agonia, a de quem chegou aqui.

E a história da alegria, é a dos povos que já estavam. E eu sempre li, nos livros, que o pessoal vivia mais ou menos isolado, ninguém falava com ninguém. Mas, se tem semente por toda a Amazônia, quem levou essa semente? Na época não tinha transporte, não tinha avião. Foram as pessoas. Esses povos da Amazônia validam esse conhecimento ancestral por milhares de anos, o exemplo são as próprias florestas. Elas estão sempre renovadas onde tem pessoas. Quanto mais gente vivendo, mais alimento, mais animal frequentando aquele ambiente. Tem uma circularidade das espécies. Na ciência isso aparece como economia circular, e essa economia circular é de milênios aqui na Amazônia.

Trabalhar na Amazônia tem o seu lado positivo e o seu lado negativo. O positivo é a alegria que se tem nos sítios arqueológicos. O profissional da arqueologia precisa estar muito bem alinhado com o tempo e o espaço da Amazônia. Para fazer arqueologia aqui, ele precisa estar meio que alegre. É essa alegria que faz a diferença em um bom profissional aqui. 

Esta entrevista foi realizada por Lisiane Müller, cientista multimídia que desenvolve o projeto “Amazônia Revelada: narrativas digitais e uma arqueologia para o futuro”, com apoio da FAPESP (processo nº 2024/15228-1).

*As opiniões, hipóteses e conclusões ou recomendações expressas neste material são de responsabilidade da autora e não necessariamente refletem a visão da FAPESP.

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